O mar pela sua vastidão, abrange e recorta os continentes, ocupando dois terços da superfície terrestre, com profundidades das mais variadas chegando a atingir os 11 mil metros (Fossa das Marianas - Pacífico Ocidental) que daria para imergir com sobra o pico mais elevado do mundo, Monte Everest, com 8.845 mil metros.

       Fica difícil determinar, com exatidão, o momento da história da Humanidade em que o homem realizou suas primeiras experiências subaquáticas. Todavia, existem motivos que nos fazem pensar sobre o motivo que justifique a tendência do homem, de forma instintiva, a procurar, uma vez ou outra, através dos séculos, a conquista do imenso mundo das águas marinhas. Talvez esta razão tenha uma justificada relação com as modernas opiniões sobre as origens da vida em nosso planeta, segundo as quais o Homem é portador de uma herança recebida de anteriores e remotas formas de vida marinha, o que conduziria à inconsciente busca ou retorno ao ambiente do que procede. O homem, em razão de seu parentesco direto com as diferentes formas de vida que povoaram os oceanos durante milhões de anos, é portador de uma remota origem marinha, como se atesta pela semelhança que existe entre a composição química do sangue e da água do mar, onde os componentes majoritários (sódio, cálcio e potássio - se encontram em quantidades muito similares.

       Este largo processo evolutivo que o Homem atravessou acarretou uma clara consciência do que significa para si esse imenso mundo subaquático, que sempre admirou com respeito e com uma grande curiosidade, às vezes idealizando esse mundo desconhecido como moradia de divindades, monstros e mitos marinhos. Partiu, então, para a conquista dos limites entre seu ambiente terrestre e o mundo submarino. Nessa conquista foram verificados alguns dissabores que, apenas com a força de sua determinação, que motiva o homem para superar todas as dificuldades, foram vencidos, conduzindo ao merecido triunfo e fazendo que a humanidade possa contemplar, aproveitar e usufruir com respeito e amor, o mundo silencioso, a imensidão azul das águas.


       Do reino de Creta ao Império Ateniense


       Onde se começa a ter uma informação mais completa da atividade subaquática do Homem é em Creta, cuja época de máximo esplendor se remonta aos anos 3.000 a 1.400 a.C., anos em que foi a primeira potência marítima do Mundo. Nas escavações realizadas se encontraram abundantes restos arqueológicos que permitiram reconstruir parte do interessante passado do povo, destacando, para nós, as informações relativas à relação do homem com o fundo do mar: plantas marinhas, peixes, ouriços, etc. Também a mitologia da época nos dá um relato expressivo relacionado como mergulho: a famosa história de Teseu, o herói ateniense que segue à Creta para matar o terrível Minotauro do palácio de Cnosos, e a que desafiou o legendário Rei Minos a recuperar uma anel de ouro do fundo do mar, ação que Teseu terminou com êxito, se mostrando um grande mergulhador.


       Mas se em Creta parece que se iniciou a atividade subaquática, é sem dúvida na Grécia o país onde esta atividade alcançou um maior auge; dali nos chegam narrações realmente interessantes a respeito desta atividade. A primeira delas se refere ao mito de Glauco, controvertido personagem que se apresenta como um simples pescador da Beócia e outros lhe relacionam com os tripulantes da lendária nau Argo, em busca do Manto de Ouro. Em qualquer caso, sua história é curiosa. Dizem que um dia, quando regressava de sua atividade de pesca, colocou os peixes sobre umas ervas que cresciam na orla do mar e que o contato com estas ervas, reviveram. Diante destes acontecimento extraordinário, Glauco não pode evitar a tentação de verificar o porque daquele fenômeno e, assim, colocou na boca um punhado daquelas ervas, observando que lhe causava enamores desejos de submergir e comprovando que podia permanecer debaixo da água quanto tempo desejasse. Dizem que a partir daquele momento, ganhou a confiança das divindades do mar, tendo o Rei Poseidon lhe elevado à condição de divindade. Suas largas permanência abaixo d'água lhe deram um aspecto entre homem e peixe, com seus cabelos e barbas tomando uma cor verde, similar as das algas marinhas.

       Existem outros fatos em que a realidade se mistura com o mito, como no caso de Glauco, e que nos são bastante surpreendentes. Uma deles teria acontecido no ano 484 A.C., durante a batalha do cabo de Artemisa entre Gregos e Persas. Os protagonistas foram dois personagens, pois eram os excelentes mergulhadores da época: Escilias de Esción e sua filha Ciana: ambos submergiram protegidos pela escuridão da noite e debaixo de uma forte tormenta, conseguindo chegar sem serem avistados até onde estavam ancorados os barcos persas, cujas amarras cortaram, causando um verdadeiro desastre que valeu a vitória dos Gregos. A importância desta façanha que, para imortaliza-la, foram erigidas estátuas de ouro em Delfos. Contam que o imperador Nero, em suas viagens por terras da Grécia, no auge de seu império, viu ambas as estátuas e ficou encantado com a beleza de Ciana, tendo levado secretamente sua estátua para Roma e que a imagem hoje conhecida como Vênus de Esquilo não é nada mais nada menos que a bela mergulhadora Ciana.


       Uma das histórias do passado envolve um mergulhador em parte das guerras navais, relatado por Heródoto (460 a.C), conhecido como Silas, um grego popular considerado herói pela brilhante atuação na captura dos Persas abaixo de Xerxeres e que forçou-os a trabalhar a bordo de seus navios. Contam que os Persas planejaram um ataque surpresa ao navio grego Artemisium, e durante o front, Silas saltou através de cabos para o navio persa rendendo todos os tripulantes. A lenda conta que ele nadou uma grande distância por baixo d'água até atingir o navio persa. Por causa de sua atuação virou o Herói da época


       Certamente o primeiro aparelho de respiração subaquática foi idealizado em 900 a.C. pelos assírios. Consistia em uma bolsa de ar fixada por correias na frente do mergulhador e ligada a boca através de um tubo. Provavelmente era confeccionado em couro. Alguns acham que era utilizado como bóia, outros como implemento de mergulho.

       Provavelmente o primeiro aparelho de circuito fechado foi idealizado pelo astrônomo e professor de matemática italiano, Giovanni Borelli, em 1680. Este aparelho consistia basicamente em uma grande bolsa de ar, com uma janela de vidro em sua parte anterior, que abrigava a cabeça do mergulhador. O ar da bolsa era "re-respirado", sem que no entanto, este passasse por algum tipo de filtro, o levou a um grande inconveniente, o aumento rápido e progressivo da concentração do dióxido de carbono na bolsa do aparelho, tornando-o inviável. Além da bolsa de ar, o mergulhador levava um cilindro com um pistão afim de ajustar o seu equilíbrio na água.


       Em 1715 o inglês Jonh Lethbridge idealizou um tipo de escafandro rígido que consistia em um cilindro de madeira, semelhante a um barril, totalmente vedado. O mergulhador entrava por uma escotilha, localizada na parte anterior do aparelho, e se alojava deitando de barriga para baixo. Havia ainda dois orifícios para colocação dos membros superiores que ficavam do lado de fora do escafandro e uma vigia para permitir a visualização do ambiente submarino. Era suprido através de um fole localizado na superfície. Há relatos de que seu aparelho teria atingido os 20 metros de profundidade e chegou a realizar vários trabalhos com sucesso

       Mais tarde, já em 1925, o oficial francês, comandante Le Prieur desenvolveu um aparelho autônomo que utilizava ar. A respiração com ar permitia que os mergulhadores descessem mais fundo e permanecessem lá por mais tempo sem que os riscos da intoxicação pelo oxigênio os acometessem, como acontecia freqüentemente com os aparelhos de circuito fechado de Fleuss e Davis.

         O aparelho de Le Prieur consistia em um cilindro de alta pressão contendo ar comprimido no seu interior, preso à frente do mergulhador. Possuía uma válvula manual de controle do fluxo de ar que era ligada a uma máscara orofacial por intermédio de uma mangueira. A medida que se descia era necessário que se abrisse mais esta válvula. Este aparelho foi amplamente difundido sendo utilizado até mesmo nas piscinas dos grandes clubes de Paris pelos nobres e pela burguesia como meio de diversão.


       Com o advento deste aparelho o homem deu o primeiro passo para abandonar os escafandros pesados e libertar-se do "cordão umbilical" que ligava-o a superfície, permitindo maior liberdade de ação, que nadasse em qualquer direção, em contrapartida com os escafandros pesados em que o homem ficava quase que ancorado ao fundo.
Atualmente existem vários tipos e modelos de aqualungs, todos tendo como base o cilindro de Le Prieur e o regulador de Cousteau-Gagnan. O crescente investimento em pesquisas marinhas, em busca de novas riquezas, levou o homem a desenvolver técnicas e equipamentos para descer cada vez mais profundo, vencendo fronteiras em busca de novos horizontes, chegando atualmente a trabalhar a 450 metros de profundidade. No campo de pesquisas já atingiu os 686 metros de profundidade no projeto Altantis III, Duke Medical Center, EUA em 1981. Tudo isto requerendo uma altíssima tecnologia e custo por parte dos investidores.
Mergulho no Brasil


       No Brasil o início do mergulho se deu durante a construção do cais Pharus (Praça XV - RJ) no tempo do Império, dando continuidade com as construções dos cais da Gamboa e São Cristóvão, por firmas francesas; o píer da Praça Mauá (1945), o Cais de Minério (1949) e o antigo Cais de Carvão (1960), por firmas americanas.
Porém, em 1958 surgiu a primeira firma nacional, voltada, exclusivamente, às atividades subaquáticas, a EBOS - Empresa Brasileira de Operações Subaquáticas, atuando pioneiramente na derrocagem das pedras do Aracaju, no porto Carvoeiro Henrique Laje, em Ibituba, Santa Catarina.


       As atividades amadorísticas do mergulho iniciaram-se na década de 40, quando alguns pilotos da antiga PANAIR, traziam do exterior equipamentos de mergulho, contribuindo para o desenvolvimento da caça submarina. Esse tipo de caça teve um grande impulso na década de 50, com a criação de vários clubes, equipes e a fundação da Associação Brasileira de Caça Submarina (ABCS), que promoveu em 1959 o campeonato internacional de caça sub-marina em Angra dos Reis (RJ). Desde então o mergulho amador no Brasil evoluiu ascendentemente, tendo sua maior expansão após o lançamento da Revista Mergulhar a Descoberta do Mar, em 1982, quando houve o aumento do número de escolas, cursos e fábricas de artigos voltados ao assunto.


       Nos inícios dos anos 80, o mergulho profissional obteve um grande impulso graças à Petrobrás, com suas prospecções petrolíferas na bacia de Campos e no litoral do Espirito Santo, chegando a realizar os mergulhos a 350 metros, um dos mais profundos já feitos para a execução de trabalhos submarinos .

       Também nos anos 80, com recursos da Petrobrás foi criado o maior centro hiperbárico da América Latina, localizado na Base Naval Almirante Castro e Silva, na Ilha de Mocanguê, Rio de Janeiro, com o objetivo de pesquisa na área de mergulho.
Atualmente, nos países do primeiro mundo, apesar de se investir pesado em centros de pesquisa na área de medicina e fisiologia do mergulho , há uma tendência de não se expor o homem a profundidades cada vez maiores, devido ao alto risco das operações. Isto certamente explica o fato do crescente desenvolvimento de pesquisas no campo da criação de robôs e submersíveis, inclusive aqui no Brasil.

   
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